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Mergulhando nas Profundezas

Procuro mergulhar, com a profundidade que conseguir me permitir, em questões a respeito da alma brasileira, aplicando para isso pontos de vista da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.






2002/03/22

 

"Nossos destinos são o resultado de nossa personalidade"


(continuação da linha anterior de raciocínio, expressa em 18/03/2002)

O título da reflexão (se quiserem, do "mergulho") anterior é a frase de Schiller citada por Jung, "Em teu peito estão as estrelas do teu destino".

Abramos o peito, a "sede" do coração, e portanto dos sentimentos, e encontraremos constelações de "estrelas" (arquétipos). Jung encontra aí um indício que demonstra os "complexos autônomos ideo-afetivos", em cujo núcleo encontramos os arquétipos, literalmente "coisa antiga que imprime".

Jung toma esse nome justamente para escapar da origem do arquétipo – importa constatar que o arquétipo é um padrão antiqüíssimo que influencia o homem antes de qualquer aquisição de consciência da espécie; procurar sua origem, neste caso, em termos práticos ou empíricos equivale a subtrair da psique sua legitimidade, algo como tentar descobrir o que há antes do Big Bang: podemos especular, mas dificilmente poderemos dizer que sabemos com exatidão.

Quando Jung atribui a partícula arché ao elemento indelevelmente impresso na constituição da espécie humana, está, de fato, dizendo que constata sua existência, mas não se atreve a determinar sua origem além do que é razoável.

Apesar do uso relativamente óbvio do termo, ainda há discussões intermináveis, e muitos dizem que Jung não deveria ter usado o termo. Devo atestar que discordo plenamente dos que acham o termo "arquétipo" desnecessário para tratar da obra de Jung; com isso desqualificam sua obra e demonstram sua inclinação (péssimo hábito do viciado raciocínio ocidental) ao reducionismo.

Eliminar o arquétipo da teoria junguiana é como tentar abrir a galinha dos ovos de ouro – uma vez aberta, nada mais vemos, a não ser carne de galinha morta.

Em outra parte, Jung deixa claro que não podemos olhar com muito detalhe para os arquétipos: se os tiramos do contexto, acabamos achando que eles desapareceram. É de novo o reducionismo em exagero.

Daí que o conceito de arquétipo se presta justamente porque é antigo, e justamente porque conserva certo mistério e sua origem não é precisa é que o arquétipo remete ao que há antes do que aquilo que houve, e permite trazer à luz, por via do princípio de conexões acausais expresso pela sincronicidade, uma conexão entre o limite mais profundo do ser humano (a interioridade, inatingível por meios diretos, do nível psicóide do inconsciente) e a exterioridade mais desconhecida do Universo Físico (onde se questionam leis de funcionamento nos níveis subatômicos e a relação entre a matéria e a energia desafia os maiores e mais distantes astros do Universo).

Essas estrelas, que desde que o homem se imagina semelhante a Deus (e antes disso) já estavam piscando nos céus, se encontram em nossos peitos, pulsando, trocando energias e se influenciando mutuamente, numa dança, uma ciranda de matéria e energia que preenche os meandros da psique. Olhando para os astros, para tudo que está tão distante, os escritores de ficção científica falam da "Fronteira Final". Olhando para dentro, encontramos a "Fronteira Final" – nosso destino – dentro de nós: a dinâmica energética da psique.

posted by Daniel Wood at 23:41

2002/03/18

 

"Em teu peito estão as estrelas do teu destino"


Carl Gustav Jung, na nota 53 do parágrafo 102 do Símbolos da Transformação, reproduz a frase de Schiller acima, citando também Emerson: "Nossos destinos são o resultado de nossa personalidade".

Quando se fala a respeito de destino, com freqüência tem-se a idéia de que todas as coisas estão pré-determinadas, como se estivesse escrito em algum lugar que viraremos a esquina da Rua Marechal Floriano Peixoto em sentido à Avenida Sete de Setembro, precisamente às 12h45 de uma segunda-feira, 18 de março de 2002.

Não é assim, porém, que Jung toma o significado de destino, quando cita Schiller e Emerson. O destino aqui é tido como sua estrutura, algo como saber que em algum momento alguma esquina será tomada; quanto a saber exatamente a hora e os nomes dos logradouros que se interceptam em determinado lugar, é outra história, porque esta última é uma coisa pessoal.

Sabemos, por exemplo, a partir das leis da Física, que um corpo tende a manter seu estado físico desde que não lhe sejam aplicadas quaisquer forças; do mesmo modo, um corpo qualquer tende a manter seu estado de movimento ("retilíneo" e "uniforme") desde que a força "resultante" a ele aplicada seja equivalente a zero. Será de fato assim?

Examinemos a coisa mais detidamente. A Física Clássica, como qualquer outra ciência, supõe coisas no intuito de traçar um modelo da realidade, ao qual certos fenômenos estão relativamente bem adequados, dadas certas condições (que são, justamente, as condições que admitem a relatividade da verdade). Quer dizer, a partir da Física Clássica, e de suas subdivisões, temos imagens adequadas do Universo, dadas certas condições, isto é, delimitando nosso campo de estudo. São representações, e não, precisamente, o que as coisas de fato são. São aproximações.

De tal modo, que dizer que sobre um corpo não há forças sendo aplicadas e dizer que sobre o mesmo corpo a resultante das forças aplicadas é zero são duas afirmações muito diferentes.

Se duas pessoas de tamanho médio empurram com igual esforço um bloco de concreto estacionado, fazendo-o de tal modo que uma fique contra a outra, então temos que a força aplicada pela primeira pessoa é de mesma intensidade e sentido oposto à força aplicada pela segunda pessoa. Isso faz com que a força de uma "anule" a força da outra, de modo que o bloco de concreto "não se move".

Entretanto, se substituirmos o bloco de concreto por um bloco de "maria mole", por exemplo, os empurrões certamente farão com que a "maria mole", a despeito de não se mover, assuma alguma espécie de deformação, eventualmente sofrendo esfarelamento. Esse é apenas um princípio de deformação dos corpos, coisa que escapa às leis da Cinemática e entra no campo da Resistência dos Materiais.

Daí é preciso remodelar nossa idéia do que acontece com os corpos, quando levamos em consideração aquilo de que são constituídos.

Do mesmo modo é preciso examinar a constituição psíquica quando se fala de destino, porque ela influi diretamente no "caminho" que vamos tomar: nosso "destino", o lugar para onde vamos, não é simplesmente coisa determinada, mas determinável à medida em que o tempo passa e a psique, como o vento, flui, interagindo com o ambiente onde se insere. Não apenas recebemos influência de forças externas, mas influenciamos o exterior, e mais: dentro de nós há forças agindo constantemente, e no embate destas se realiza o destino de cada um.

Se viramos à esquerda ou à direita, e em que tempo isso acontece, depende não somente do Sol ou da chuva, da noite ou do dia, do patrão ou do empregado, e assim por diante. A dependência que temos de nossa configuração psíquica é muito grande na medida em que não pode brotar consciência de si mesmo sem que o indivíduo se aperceba que o mundo que ele vê é, em profundidade, aquilo que ele pode ver naquele momento.

No entanto, não saber não significa não ser. Somos, independentemente do que sabemos a respeito de nós mesmos. De tal modo, que aquilo que não sabemos a nosso respeito nos faz ser sem que o saibamos -- de modo tal que não admite mudança, é inexorável e, neste sentido, representa o destino do ser, no sentido de que influencia de modo permanente nossos pensamentos, palavras, atos e sentimentos, às expensas do que pensamos que somos.

posted by Daniel Wood at 11:35

2002/03/08

 

Mais palavras


O Dicionário Universal da Língua Portuguesa, em http://www.prossiga.br/comoachar/dicionario.html traz para o verbo inventar as seguintes (sempre significativas) informações:


do Lat. inventare, freq. de invenire
v. tr.,
imaginar;
urdir;
tramar;
criar no pensamento;
ser o primeiro a ter a ideia de;
armar intrigas;
contar falsamente.

e em outro lugar encontramos: (em inglês: http://cawley.archives.nd.edu/cgi-bin/lookit.pl?latin=venire):

venire
venia : graça, indulgência, favor, perdão.
venio : veni : ventum : vir / acontecer, passar / levantar-se.
venio : entrar em certo estado, cair em.

É interessante a conexão entre inventar e ventar (inventar também significa "ventar para dentro", pela partícula in - ventus: vento, rumor, favor.). Deveras, porque ao observarmos que o significado de psique, no grego, não é apenas alma, mente, mas também vento, borboleta, e o ar que move as asas da borboleta.

Daí que a relação entre a invenção e a alma, tendo a primeira como criação (manifestação) da segunda, é direta, e coisa específica do funcionamento psicológico. Isso tem implicações profundas, de modo que, examinando as "coincidências" inventivas que acontecem no mundo, percebemos que elas têm relação com a proposta de um sentido de coletividade na psique objetiva (alma e inconsciente coletivo), ao passo em que também encerram o sentido teleológico que está na alma e que é percebido na medida em que se desenvolve o indivíduo.

É interessante também que o sentido pejorativo de invenção, tanto em inglês quanto em português, é mesmo o de negar a existência para algo; quer dizer, aquilo que surge da criatividade também pode ser considerado falso. Como pode uma criação (manifestação de coisa que é sempre da alma) ser considerada falsa?

Em um mundo voltado unilateralmente para a exterioridade, a criatividade só parece ter valor quando voltada para a produção, para o que desloca o investimento de energia psíquica para o que está fora. Vejamos: coisa interessante, importante, esse investimento de energia psíquica em algo exterior, não concorda o caro leitor?

Daí que, a bem da sensatez, só se pode mesmo perceber que as coisas se tornam óbvias na medida em que somos capazes de entender esses movimentos da linguagem, que também são expressões da psique objetiva, filtrados através de milênios de cultura.

posted by Daniel Wood at 15:49

2002/03/06

 

Primeiro Dia


O termo "colidentes", que encontrei hoje lendo um relatório de 1900 e bolinha, como diria um amigo, é um termo interessante.
Estava numa frase assim: "revogadas as disposições colidentes". Achei interessante porque colidentes não é apenas sinônimo de contrário. É de coisa que colide, sim, os contrários tendem a colidir; mas a questão é que algo colidente, a partir da Física, não é simplesmente algo contrário: pode ser algo vindo lateralmente (caso em que há abalroamento lateral na colisão), em alguma espécie de ângulo de trajetória, que pode ser reto, agudo ou oblíquo, dependendo do sentido e da convenção de medida de ângulos que se utiliza.

Além disso, os objetos colidentes podem ter o mesmo sentido, no caso em que o que é perseguido tem velocidade menor do que aquele que persegue.

Aí é que a coisa pareceu-me interessante: é que muitas vezes colidimos, na ânsia de alcançar a verdade, com as coisas que acabamos de lançar à nossa frente.

posted by Daniel Wood at 22:51

 

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